Trecho do interrogatório do auxiliar Robert
Gama
(Foto: Reprodução)
Dois dos três homens que estão presos temporariamente por confessar o
envolvimento no assassinato da universitária e promotora de eventos Lore de
Santana Vaz, de 26 anos, disseram em seus depoimentos à Polícia Civil que usaram
duas facas no crime: uma de churrasco, de 30 centímetros, e uma outra, de 15
centímetros. Nos interrogatórios, eles se acusaram mutuamente sobre quem teria
sido responsável pelo golpe que matou a jovem na última quarta-feira (12).
De acordo com os presos, o funileiro Raimundo Nonato Bezerra, de 32 anos, e o
auxiliar de limpeza Robert Pirovani Gama, de 21 anos, a faca de churrasco usada
no crime foi cedida pelo ex-marido da vítima e suspeito de ser o mandante do
crime: o desempregado Allan dos Santos Peçanha, de 27 anos. Até esta tarde, as
duas facas usadas no crime não foram localizadas.
O
G1
não conseguiu localizar nesta quarta-feira (26) os advogados dos detidos para
comentar os depoimentos.
O crimeNa quinta-feira (13) passada a estudante foi
encontrada degolada em
Santo André, no ABC, dentro do
carro usado por ela. O pescoço e orelha da vítima estavam cortados e os dentes
quebrados.
De acordo com o Setor de Investigações sobre Crimes de
Homicídios da Delegacia Seccional da cidade, Allan Peçanha pagou mais de R$ 2
mil para que sua ex-mulher fosse levada na saída da faculdade em
São
Caetano do Sul e morta na sequência.
O motivo, segundo a
investigação, foi financeiro: Lore estava cobrando do ex-marido uma dívida de R$
3 mil. Após o crime, o trio fugiu em um veículo conduzido pelo ex-marido da
vítima. Imagens gravadas por câmeras de segurança mostraram a ação
criminosa.
'Bem afiada'O
G1 teve acesso aos
interrogatórios dos três presos. Na sexta-feira (21), a equipe do delegado Paulo
Rogério Dionizio ouviu a versão do funileiro Raimundo. “Meu parceiro Robert
ficara com ela no banco traseiro deste carro. Robert estava com uma faca grande,
fornecida pelo ‘Boy’ (Allan) e eu estava com outra, um pouco menor”, disse
Raimundo aos policiais.
O auxiliar Robert deu seu depoimento na quinta-feira (20). “Informo que as
facas utilizadas, uma foi fornecida pelo próprio Allan, e a outra levada por
Raimundo. A faca fornecida por Allan era daquelas utilizadas em churrasco, com
lâmina de aproximadamente 30 centímetros, tendo ela permanecido em meu poder. A
faca usada por Raimundo era de tamanho menor, com aproximadamente 15 centímetros
de lâmina, porém, bem afiada”, relatou.
Apesar de confirmarem em seus
interrogatórios que fizeram uso de duas facas para sequestrar Lore, Raimundo e
Robert negam que tivessem a intenção de matá-la. Informaram ainda que o
combinado com Allan era somente dar um susto na ex-mulher dele.
Funileiro Raimundo Bezerra (Foto:
Reprodução)
“Eu questionei Robert e Boy, haja vista que o combinado não era matar a
vítima e sim assustá-la. Robert dizia: ‘...já era, o que tá feito, tá feito’. Já
o Boy dizia o mesmo, parecia satisfeito com o resultado. Para mim, Robert e
Allan (Boy) combinaram anteriormente matá-la (...)”, informou Raimundo.
Robert informou que a outra parte do que haviam combinado era “pegar o
veículo [um Fiat Uno que Lore usava]”.
Em outros trechos de seus interrogatórios, o funileiro e o auxiliar entram em
contradição sobre quem degolou Lore. Um acaba acusando o outro pelo
assassinato.
“Acredito que a vítima [Lore] tentara reagir, aí Robert desferira alguns
golpes na vítima, na região do pescoço e acredito que na cara também. Eu dizia
para Robert parar com as agressões. Eu apenas dirigia e não tinha muita visão do
que ocorria no banco de trás (...) Fora usada somente a faca maior. Sofrera
vários golpes, ela gritava e dizia que estávamos machucando”, contou
Raimundo.
Auxiliar Robert Gama (Foto:
Reprodução)
'Arranhou o meu rosto'A versão do funileiro Raimundo
sobre quem esfaqueou a universitária é rebatida pela de Robert. “Aí comecei
falar para ela [Lore] ficar calma, de repente ela começou a se debater e tentou
tirar a faca da minha mão. Ela segurou a faca da minha mão, e tentava puxar de
mim. Ai ela arranhou o meu rosto e passou a faca no meu rosto. Aí falei pro
[sic] Raimundo que ela estava pegando a faca e tinha me cortado. Foi ai que o
Raimundo pegou a faca do colo dele, e mesmo dirigindo o veículo, se virou, e
passou a faca no pescoço dela", afirmou em depoimento.
"Joguei ela de
lado, falei para ele que ela tava morrendo. Aí, ela ainda tentou abrir a porta
do carro e eu puxei ela. Joguei ela no banco e ela ficou caída com o pescoço
para trás. O Raimundo deixou a faca cair, e foi aí que eu sujei as mãos de
sangue, porque fiquei procurando a faca. Depois pulei para o banco da frente,
falava para o Raimundo que ele era louco de ter matado a menina”, disse o
auxiliar, que já ficou preso por um ano e nove meses por roubar um posto de
gasolina em São Bernardo do Campo.
Desempregado Allan Peçanha, ex-marido de
Lore
Vaz (Foto: Reprodução)
Após perceberem que Lore foi fatalmente ferida, Raimundo e Robert abandonaram
o Fiat prata, com Lore dentro, numa rua em Santo André. Em seguida, eles
contaram que Allan os esperava em um Chevrolet Kadett vinho e os ajudou a fugir
do local do crime. O auxiliar contou ainda que gastou o dinheiro que recebeu
pelo crime comprando um tênis e passeando com a mulher num
shopping.
'Coação'Depois de ter confirmado em seu
interrogatório que havia contratado o funileiro e o auxiliar para darem um
“susto” em Lore, Allan voltou atrás e mudou a versão.
Segundo seus
advogados disseram na terça-feira (25) ao
G1, o ex-marido da
vítima tinha confessado sua participação no crime porque foi
coagido
psicologicamente e intimidado e pressionado pelos policiais civis.
“Ele confessou um crime que não cometeu sem a presença de seus defensores
constituídos”, disse o advogado Luis Eduardo Crosselli, que, juntamente com a
advogada Cristiane Tavares dos Santos, defende Allan.
A defesa informou
que irá pedir a Justiça para que seu cliente responda ao homicídio em liberdade.
Procurados, o Setor de Homicídios e o Ministério Público negaram que o suspeito
tenha sofrido qualquer coação nas quase duas horas em que foi ouvido na presença
deles.
Por conta das contradições nos três interrogatórios, a polícia não descartou
uma acareação entre os detidos e até mesmo uma
reconstituição.
Os laudos da Polícia Técnico-Científica também são aguardados para apontar quem
degolou Lore. Um deles é de DNA: irá comparar o material genético de Raimundo e
Robert com a pele encontrada sob as unhas de
Lore.
AcusaçãoPara o advogado Ademar Gomes, que
representa a família da vítima, as alegações de coação não devem interferir no
andameto do inquérito. “O fato de os acusados negarem seu depoimento na polícia
sob alegação de que foram coagidos não corresponde à realidade, pois os mesmos
recusaram a presença de seus defensores", afirma.
"Além do mais, também o
depoimento dos mesmos foi assistido pela promotora de Justiça Dra. Daniela e
mais duas testemunhas - além da apreensão da faca e também dos vídeos, também
apreendidos pela polícia, que colocam os acusados na cena do crime. Para a
acusação é importante que os acusados neguem a autoria do crime. Isso virá a
fortalecer a acusação e os acusados não terão a seu favor qualquer atenuante e
benefício na dosimetria da pena”, afima Ademar Gomes.